prosopografia da burocracia econômica argentina e brasileira entre 1930 e 1964
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A
literatura especializada na Argentina e no Brasil se refere de maneira
recorrente à burocracia econômica durante o período que vai dos anos 1930 a 1966.
No entanto, em raríssimas ocasiões o assunto é abordado com alguma sistematicidade.
Há, portanto, uma dificuldade de saída, que consiste em encontrar textos e
fontes que apresentem dados confiáveis sobre quem eram essas pessoas e quais
eram suas características profissionais e ideológicas. O nosso estudo procura
reunir, da forma mais sistemática que nos foi possível, um leque de informações
sobre esse grupo espalhadas por toda a literatura consultada ao longo da
pesquisa. Para tanto, era importante ter algum critério de inclusão na formação
da lista dos indivíduos que compõem a burocracia econômica dos dois Estados.
Por óbvio, todo aquele que fosse citado como membro das agências estatais
referidas em capítulo anterior (ver Renato
Perissinotto, Ideas, burocracia e industrialización en Argentina y Brasil.
Buenos Aires, Lenguaje claro Editora, 2021) e sobre quem se revelasse uma carreira pública
prévia foi incluído na nossa lista. Esse critério não redundou num corpo de
burocratas puros, já que alguns empresários, assessores pessoais ou mesmo
políticos profissionais participam dessas agências com alguma frequência depois
de terem ocupado outras posições no serviço público. De qualquer forma, há sim
um predomínio de indivíduos oriundos do setor público nos dois países. Usamos
dois critérios de exclusão. O primeiro retirou de nossa lista qualquer
indivíduo que estivesse nessas agências explicitamente como representante do
setor empresarial; o segundo, excluiu aqueles que entraram no serviço público
pela via direta das altas posições ministeriais ou que, depois de uma
trajetória quase toda concentrada em cargos políticos eletivos, são alçados
àquelas posições. Se o nosso objetivo é analisar a burocracia econômica, sua
permanência na administração pública e sua ideologia, não faria sentido colocar
na lista aqueles que são, antes de tudo, representantes do setor privado e
aqueles que chegam ao serviço público pela via de um recrutamento exclusivamente
político e, por consequência, muito sensível às mudanças de conjuntura. Isso
não quer dizer que todos os empresários sejam excluídos da nossa amostra.
Alguns aparecem no nosso universo, mas lá estão menos como representantes
corporativos do setor empresarial e mais por terem sido capazes de converter
seu capital econômico em influência política no setor público. Assim, com base
na leitura da literatura especializada, identificamos uma lista de nomes
recorrentes, composta, no total, de 125 indivíduos no caso argentino e 135 para
o caso brasileiro. No entanto, conseguimos um montante de informações
relevantes para apenas 79 indivíduos no caso argentino e 86 no caso brasileiro. Para esse conjunto de
indivíduos aplicamos o método prosopográfico na tentativa de obter uma
biografia coletiva desses dois grupos que nos permitisse compará-los [Para o
caso brasileiro, as tabelas sobre carreira e formação acadêmica apresentarão um
N de 82 indivíduos, pois para quatro nomes que fazem parte do nosso banco não
conseguimos informações dessa natureza. São eles Américo Curi, Américo Barbosa
de Oliveira, Evaldo Correia Lima e Herculano Borges da Fonseca].
Como dissemos acima, toda a literatura consultada para a elaboração
deste livro serviu de fonte para coletar os nomes, os dados de carreira e
ideologia, e será referenciada ao longo do capítulo. No entanto, duas fontes
foram particularmente importantes pelo uso recorrente que dela fizemos. No caso
do Brasil, o Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, disponível on line na
página do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
(CPDOC); no caso argentino, o Quién es quién en la Argentina: biografías
contemporáneas, publicado pela Editorial Guillermo Kraft Limitada, em Buenos
Aires, no ano de 1955. Foram consultados ainda várias páginas na internet, notadamente
as biografias do wikipedia, que, quase sempre, emulam as contidas no livro
anteriormente citado.
Antes de apresentarmos a nossa análise, é importante fazer algumas
observações sobre os limites dos dados aqui apresentados. O primeiro problema a
ser, se não resolvido, ao mesmo atenuado, é o da comparabilidade. A quantidade
e a qualidade das informações encontradas na literatura de ambos os países são
muito diferentes. A própria existência de um dicionário biográfico oferece,
para o caso brasileiro, uma quantidade maior de informações sistematizadas. A
situação é significativamente diferente para o caso argentino, em que as
informações são mais resumidas. Dessa forma, são os dados sobre a argentina que
ditam a organização do presente capítulo, já que não faria muito sentido
apresentar dados sobre os indivíduos do Brasil que não pudessem ser comprados
com o caso argentino. Ainda, assim, não conseguimos uma comparabilidade plena e
algum desequilíbrio permanece.
Em segundo lugar, o conjunto de nomes de cujas biografias coletamos os
dados não pretende ser uma amostra representativa do conjunto das burocracias
brasileira e argentina, nem sequer do conjunto da burocracia econômica de ambos
os países. Não teria como ser de outra forma, pois não temos, e ninguém tem, a
mínima ideia do universo total de indivíduos que compõem tal população. A
representatividade de nossa amostra é, por assim dizer, estritamente teórica,
isto é, está de acordo com o que nos informa ampla e reiteradamente a
literatura especializada sobre o assunto.
Por fim, um rápido comentário sobre os limites dos dados acerca da
ideologia econômica dos indivíduos aqui analisados. Duas observações são
importantes quanto a esse ponto. Primeiro, como já dissemos, captar a ideologia
de indivíduos não é uma coisa simples, sobretudo quando eles próprios não falam
abertamente sobre o assunto e, por conseguinte, não produzem qualquer espécie
de autodeclaração nesse sentido. Para resolver esse problema, mais uma vez o
que é dito na literatura é incorporado por nós como dado. Às vezes, os
estudiosos fazem referências diretamente à ideologia econômica de um indivíduo,
que neste ou naquele episódio adotou esta ou aquela posição. Em outros
momentos, a literatura classifica ideologicamente grupos inteiros, como é o
caso do trabalho de Louro de Ortiz (1992) ao tratar do conservadorismo
renovador do trust de cérebros organizado por Raúl Prebish a partir de meados
da década de 1920. Nenhum desses procedimentos, e aqui surge o segundo
problema, resolve o problema da mudança de posição ideológica ao longo do
tempo. Mais uma vez, nos amparamos na literatura nesse ponto e podemos afirmar
com alguma segurança que os liberais, com algumas exceções, permaneceram
liberais durante todo o período, assim como os desenvolvimentistas.
创建时间:
2021-02-11



